| A MULHER DO LEPROSO:
Eu tão longe andei.
Posso dizer que vivi na carne aquilo que as pessoas só vivem em seus piores pesadelos. Tudo que vou contar é a mais pura verdade. Eu vivi tudo isso. Posso dizer que estive no inferno e voltei.
Eu nem sei como contar a vocês tudo que se passou.
Tudo que eu disser é pouco diante a realidade.
Onde começar?
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Me lembro bem a manhã em que tudo começou. Meu marido estava na cozinha esperando seu café da manhã. Ele estava sentado na mesa ainda sem camisa. Minha filha de 12 anos estava atrás dele, olhando a marquinha que ele tinha nas costas. Acho que na hora ela falou uma coisa como: “Papai, quando ´cê vai mandar olhar essa marquinha? Ela ´tá crescendo!” Acho que Kenaz nem respondeu.
Eu estava no fogão. Eu nem quis me virar para não me meter no assunto. Eu mesma tinha visto aquela marca por várias noites no último mês. Cheguei mesmo a falar com Keni sobre ela, mas vi que meu marido não queria comentar a respeito. Parecia até que ele estava com medo de falar nela. Parecia mais um cachorrinho machucado. Ele se afastou de mim...e de todos nós e passamos a conversar cada vez menos quando ele ´tava em casa. Ele era sempre assim...ele se fechava quando preocupado. Ficava irritado, Nem carinho a gente fazia mais. “A Porcaria dessa mancha!!.... se espalhando nas costas dele como se fosse um bicho, uma aranha!” Eu ia esperar de novo que Keni se virasse para dormir e examinar mais uma vez aquela mancha e perceber que nunca diminuia. Continuava crescendo e até mesmo aparecendo em outras partes.
Eu já não sabia o que fazer. Será que aquilo era uma marca vinda de Deus? Será que podia ser.... Lepra?! Dizem que lepra é uma maldição de Deus p´ra aqueles que tinham feito muita besteira, pecado por esse mundo afora. Nem posso imaginar quê que ele andou fazendo por aí. Imagine só... Eu pensei que conhecia meu marido. Sei que ele não era santinho, mas nunca imaginei que ele seria capaz de fazer uma coisa muito ruim. Eu nunca tinha duvidado de Kenaz, mas agora eu ´tava estranhando aquele homem que eu tinha dentro de casa.
Depois daquele dia ele começou a ficar quieto.... pelos cantos.... saía cedinho e só voltava tarde da noite... e nunca falava onde tinha ido. E a mancha espalhando... até que virou uma mancha grande, feito uma manchona roxa. E aí, começou a aparecer nos braços, nas pernas... Kenaz já nem saia com camisa de manga curta; queria só usar as de manga comprida. Até aqui em casa! Os meninos já percebiam que tinha alguma coisa errada, mas nós nunca chegamos a conversar sobre isso.
Aguentei, aguentei, até que quando eu vi a mancha chegando no rosto dele, não aguentei e falei: “Oh, Kenaz, ´cê precisa ir no medico ver essa mancha, ´ta ficando muito feio isso!” Acho que ele foi no dia seguinte. Só sei que quando ele voltou, ´tava nervoso, resmungando, reclamando de tudo... pegou as roupas dele junto com um pouco de comida e o pão que sobrou do café e enfiou tudo numa sacola. Virou pra mim e falou: “Agora ´cê conseguiu o que ´ocê queria. ´cê ´ta satisfeita?” E saiu por aquela porta.
Só depois é que me contaram que o médico chamou o sacerdote e disseram que ele tinha... quer dizer, eles falaram que... desculpa, gente... (pausa) eles falaram que ele ´tava “IMPURO”
Impuro: quê que eles querem dizer com isso? Não é só doente não, é “impuro”. Eu não sei o que que mais doía: aquela doença, ou o olhar de todo mundo pra mim. E o pior foi o que começou a acontecer: Os amigos já nem queriam falar comigo, nem os parentes... (deboche) Ah, os parentes... antes, não queriam nem comer lá em casa com medo de pegarem a tal mancha. Agora, já ´tavam até dividindo nossas coisas como se a gente tivesse morrido. Quando a desgraça entra pela porta, os tais “amigos” saem pela janela. É aí que a gente conhece, quem gosta mesmo da gente e que nos ajuda numa situação dessas. As irmãs dele resolveram que deviam levar as meninas pra viver com elas e o marido delas já queriam dividir a terra que era nossa. Falavam no Keni como se já tivesse morto. ´Tavam de olho nas nossas coisas, falando pelos cantos, todo cheio de coisa, dizendo que só queria ajudar... Que nada! ´tavam mesmo de olho no que a gente tinha e querendo mandar até na minha vida dizendo que eu devia casar de novo. “Gente!... Ele não ´tava morto não!, Todo mundo sabia disso!”
Apesar disso tudo, eu tava estranhando o modo que eu deixava as coisas acontecer: Deixei que invadissem a nossa casa, e até levassem as nossas filhas. Dexei que levassem muitas das nossas coisas. Cheguei mesmo a começar a pensar em me interessar por outro homem, outro casamento, uma nova vida longe de tudo aquilo que eu mais tinha gostado. Eu não era eu mesma; eu não estava em mim. Tenho vergonha de dizer que cheguei a pensar em trair o Keni. Eu olhava pras minhas mãos e elas estavam cheias de problemas. E quem era eu pra saber como resolver só um deles? Eu que era “IMPURA”. Eu não prestava pra nada. As mulheres pararam de falar comigo. Minha própria filha... ela nunca mais foi a mesma. Eu não sabia nem o que falar com ela, eu nunca fui boa com palavras. E eu não tive cabeça para pensar nela.
Cheguei a procurar Kenaz. Todos tentaram me impedir. Mas não aguentei. Tinha que ver ele. Custou pra achar onde ele se enfiou, mas achei. Eu queria nem ter achado. ´Tava vivendo com os outros – tal qual bichos no mato. Cada um pior do que o outro, e mais feio tambem... a catinga de carne podre... e a maneira que eles se tratavam. Fiquei até com medo quando reconheci o meu marido. Nem parecia ser ele. Tinha envelhecido uns vinte anos. Um dos seus olhos, eu nem consegui ver. Parecia que tinha sido arrancado. E suas mãos, nem pareciam mãos direito. Eles estavam brigando por um pássaro morto. Havia um bando deles, como se fossem lobos. Quando Kenaz me viu, ficou todo envergonhado e louco de raiva gritando pra mim: “Sai daqui mulher danada!” Quando me viram, os outros começaram a tirar a roupa e se amostrarem pra mim. Era uma coisa horrível. Keni atirou uma coisa em mim, eu nem olhei o que é que era. Só queria sair correndo dali. (chora)
Eu não voltei logo pra casa. Eu nem sabia pra onde ir. Parecia que tinha uma daquelas manchas no meu coração. Deus havia me marcado também. Como Keni, eu também era um trapo humano. Eu sentia isso. E ainda teria que fazer alguma coisa pra ganhar dinheiro e eu nem imaginava como. Sei lá!... a única coisa que eu tinha era o meu corpo. Eu já estava podre. Era um inferno! Estava sozinha, e foi assim que eu fui de cidade em cidade.
(pausa)
Eu ´tou contando tudo isso, não é para ficar me lembrando do passado. Na verdade, eu quero mostrar o dia mais feliz da minha vida. Porque a vida é uma surpresa, eu te digo. Depois de tudo aquilo, depois de estar como eu estava, depois de ficar como Keni ficou, depois de ver toda a nossa vida arruinada, eu tive Keni de volta! É, é sério!... Até minha família eu consegui de volta. Como se fosse um passe de mágica, tudo que era ruim na nossa vida, desapareceu. Eu jamais podia esperar por tudo que veio de bom. (lágrimas de alegria) Quando Keni apareceu na minha frente, eu nem acreditei. Tão longe de casa, tão longe de nossa vida, tão longe de nossa família. E ali, na minha frente estava Keni, sem uma manchazinha sequer. Ele me abraçou apertado e ficamos assim, quietinhos, sem dizer uma palavra. Durante muito tempo, a gente só conseguia chorar.
E até hoje, ´cês precisam ver: nenhuma manchinha, limpo, puro, (rindo) como se tivesse nascido ontem. O sacerdote e o médico nem acreditaram quando nos viram. Ficaram calados com uma cara de espanto, olhando pra Keni e para mim. Eles sabiam o que a gente tinha passado e não esperavam nunca nos ver de novo. Vivos, limpos, felizes com a nossa família. Eu ria que só eu. ´tive tanto, mas tanto orgulho do meu marido naquela hora. E os vizinhos, ... ah que delícia!
Foi um dia só de alegria e sorriso. Até mesmo a nossa filha, que eu cosiderava perdida, quis voltar pra gente. Depois de tudo que aconteceu, depois de tudo que eu fiz, ela voltou. Eu não merecia, ganhei tudo de volta! E não era só isso. Havia também o rabí. Cês sabem do que que eu estou falando, de quem que eu ´stou falando? Jesus, aquele Judeu. É, foi ele que fez tudo! Ele acabou com as manchas de todo mundo de uma vez só. Parece até que nos limpou por dentro e por fora como se fosse um milagre. Incrível! E o Keni levou a sério mesmo o que Ele ensinava. Agora a gente ´tá se preparando pra ir ver ele na próxima semana. O rabí falou pra Keni que a gente tinha uma viagem especial pra fazer. Mal posso esperar por ela e a gente não quer ser deixado pra trás. ´Cê nem imagina o quanto a nossa vida vale agora. `tá melhor agora do que era antes. Hoje de manhã, quando olhei as minhas mãos que ´tavam tão cheias de problema, eu me assustei: elas estavam vazias... vazias de problemas. Nenhum ouro do mundo paga isso! A gente deve tudo a ele. (música entra) Eu mal posso esperar para encontrar ele, o nosso rabí. Eu mal posso esperar para você encontrar ele. Você vai entender o que que eu, o que que nós estamos falando.
-Bryan Edwin Carruth